Há um conto do escritor católico tcheco Karel Kapek, “Os Cinco Pães”, que trata de um padeiro enraivecido com o milagre da multiplicação dos pães. Em um ponto o padeiro diz: “que ele cure quantas pessoas quiser, pode até ressuscitar os mortos, mas aquele truque dos cinco pães, aquilo ele não devia ter feito nunca. Como padeiro estabelecido devo dizer-lhe: ele cometeu uma grande injustiça contra a classe”.

Há uma reflexão profunda por detrás deste humor ácido, sobre a prevalência de nossos interesses egoístas e mundanos que bloqueiam a capacidade de apreender, do anúncio do Evangelho pela Igreja, as exigências da Justiça e da Paz, de acordo com a sabedoria divina, conforme determina nosso catecismo.  Muitas vezes somos como o padeiro do conto que, mesmo confrontado com o conhecimento da Verdade e do Milagre, não está disposto a aceitar suas consequências naquilo que está mais ligado à sua vida.

Para quem foi chamado a exercer um mandato na atividade política, este desafio de confrontar as nuvens de interesse e estratégia com as determinações sólidas da Doutrina torna-se ainda mais complexo. É um desafio a cada decisão complexa incluir no centro das preocupações o questionamento sobre quanto aquela decisão está em conformidade com os ensinamentos cristãos, com a Doutrina Social da Igreja.

Certamente há alguns critérios objetivos para esta decisão, em particular o conhecimento e a verdade, no espírito do Fides e Ratio, que torna fecunda a relação entre a fé e a razão quando há a inspiração dos ensinamentos da Igreja. Sem dúvida toda política pública ou decisão política na qual há a preocupação de atender aos ensinamentos dos Evangelhos explicados pela Doutrina Social serão também consistentes com a razão, mas o recíproco não é sempre verdadeiro. Isto é particularmente verdadeiro nestes tempos em que prevalece a Razão Instrumental, na qual os elementos materiais e os números prevalecem sobre a justiça e a valorização do Homem, tal como no raciocínio do padeiro.

A falta de um fórum mais amplo no qual estas questões e decisões possam ser debatidas com as lideranças laicas e clericais preocupadas com as especificidades das diversas áreas de atuação política, econômica e social torna muitas destas decisões muito solitárias e amplia as possibilidades de erro, mesmo quando existe a profunda vontade de acertar. Também é necessário dizer que, muitas vezes, aqueles que poderiam ajudar na construção da decisão correta e não o fizeram, estão entre os primeiros a criticar a decisão depois de tomada, tantas vezes enfraquecendo a liderança e autoridade pública daqueles que estão do mesmo lado.

A Doutrina Social da Igreja não é apenas um guia teórico e estático, deve ser também práxis como tantas vezes frisou  João Paulo II, fora o fato de que o elemento comunitário da vida social está no próprio centro do ideal da Doutrina. Assim, é preciso refletir sobre qual suporte tem sido dado e quais ações tem sido realizadas para dar orientação e apoio aos que foram chamados a esta tarefa difícil de tomar as decisões da esfera política à luz do Evangelho.

É paradoxal que justamente nós que temos este arcabouço da Doutrina Social, compreendemos a complexidade dos muitos aspectos da vida social – cultural, econômica, política, do trabalho – tenhamos estado muito atrás das mais variadas confissões militantes na política em termos de articulação. Muito do que tem sido feito pelos outros, para reforçar o paradoxo, vem da experiência acumulada nas organizações e movimentos católicos que, desde o início do século passado, estiveram presentes na vida política do país. Muitas destas estruturas serviram de base para movimentos inclusive seculares, outras de inspiração para movimentos confessionais.

Se queremos avançar com a agenda inspirada a nós pelo Evangelho, é essencial reduzir o isolamento que separa de um lado as autoridades da Igreja e de outro as lideranças políticas comprometidas com a Doutrina Social da Igreja.  É indispensável buscar uma nova dinâmica, na qual a constante inspiração para as decisões e o suporte mútuo possam voltar a florescer e inspirar um continente no qual este fermento da política pela Revelação é mais necessário do que nunca.

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